RELAÇÃO ÍNTIMA DE FÃS COM STAR WARS COMPROMETE DUBLAGEM DE BATTLEFRONT

Star Wars é uma religião para seus seguidores - mas quem resolveu dublar o shooter se esqueceu desse detalhe

Por Luiz Queiroga e Vebis Jr* 

Um microfone se provou mais mortal do que um rifle de blaster ou sabre de luz
Futebol, política e religião não se discutem no mundo normal. Para o fã de Star Wars, as polêmicas são outras: qual a ordem certa para ver a saga? Por que George Lucas criou Jar Jar Binks? Ver os filmes legendados ou dublados?

Esta última questão, por sua vez, tomou dimensões maiores recentemente em função do lançamento iminente de Star Wars Battlefront, datado para 17 de novembro.

A Warner Games informou que o shooter desenvolvido pela DICE chegaria ao mercado totalmente em português. A informação, claro, deixou muitos fãs receosos... Se a dublagem da própria saga tem dado o que falar, principalmente pela nova redublagem de 2015, imagina então no campo dos videogames?

A Electronic Arts divulgou o trailer oficial de Battlefront e nele foi possível escutar pela primeira vez o jogo na versão nacional................ E a maioria dos fãs se revoltou D:


O próprio dublador oficial de Han Solo (e agora também de Yoda), Guilherme Briggs, não aprovou o trabalho feito com as vozes no game. “Eu achei péssima a dublagem. Parece amadora. Muito fraca e deficiente”, comentou em seu Twitter.

Mas como funciona a dublagem de um jogo?
Bruno Sangregório tem muita experiência
com dublagens de jogos (Foto: Arquivo pessoal)
A Sociedade Jedi conversou com o ator e dublador Bruno Sangregório. Ele já trabalhou em diversos tipos de games, como Battlefield Hardline, Lego Jurassic World, Jake and Tess: Finding Monsters e foi técnico de captação de áudio em Cavaleiros do Zodíaco - Alma dos Soldados.

Antes de falar da dublagem nos jogos, Sangregório discute sobre a maior indústria de entretenimento no país: a cinematográfica. Então abramos um enorme parêntese:

Bruno dá ênfase que a dublagem nacional é reconhecida como uma das melhores do mundo. Há, porém, uma observação importante: um simples descuido pode queimar a imagem de todo um trabalho caso o prazo da entrega seja um problema maior do que a qualidade do produto propriamente dito.

A boa dublagem brasileira não consiste apenas na tradução e sincronismo de um idioma para o nosso, mas também na boa adaptação, que só vem através de um entendimento geral sobre o assunto a ser tratado num filme. Cabe a toda equipe de dublagem, que consiste em tradutor, diretor (que muitas vezes é quem adapta o texto), técnico e elenco, fazer um bom trabalho para uma se ter uma versão satisfatória em seu idioma.


Fora do Brasil, o conceito de dublagem é a contratação simplória de dois atores: homem e mulher com alcances de timbres graves e agudos e estes estão encarregados de dublar o filme inteiro. No Brasil, o ator adota uma voz fixa para o filme todo, por isso nosso mercado traz nomes célebres de dublagens que se mantém por contratos altos e que infelizmente está ameaçado pela urgência e prazos apertados que comprometem a qualidade.

Parêntese fechado, retomemos ao mundo dos videogames. Sangregório afirma que a dublagem de jogos é algo muito novo, ainda sendo descoberto e aperfeiçoado. Diz que a boa dublagem boa dublagem é aquela que se passa despercebida e permite se observar apenas a qualidade do produto. Ainda: que seja sincronizada com a mesma energia proferida pelo ator na tela, porém, traduzida corretamente e atuada na enculturização territorial - abrindo mão de seu processo de interpretação para assumir algo novo e condizente.

Aí que surgem alguns trabalhos recusados pelo público como foi o caso da Pitty com Mortal Kombat e Roger em Battlefield Hardline, nos quais a distribuidora apostava na dublagem de celebridades do rock como um chamariz de games que nem precisava - e, assim, teve rejeição por parte de público. Aqui, o problema está centrado num erro estratégico de marketing submetido a direção de dublagem. Os cantores contratados em nada tem a ver com isso.

Tire suas próprias conclusões da dublagem de Pitty:

Patton contou com muitas referências na dublagem em The Darkness
e mandou muito bem (Reprodução: Youtube)
Não que apenas atores ou atrizes tenham o direito de dublar jogos. Bruno Sangregório ainda usa seu lado roqueiro para contar que Mike Patton, vocalista do Faith No More, dublou recentemente o mafioso Jackie Estacado, protagonista do game The Darkness, referente dos quadrinhos da Top Cow.

E Patton teve o maior número possível de referências, pois criou um universo ao redor da voz para sua atuação e sua imersão!!! Chama-se este processo "voz original".

O mesmo pôde ser visto no trabalho mais recente de Sangregório: o jogo Jake and Tess Finding Monster, para Android - produção da Black River Estúdios em parceria com a Samsung. O game é nacional e lançado mundialmente. O diretor do jogo ambientou os dubladores para que colocassem suas vozes e jeitos dentro de reações dos pequenos monstros. 



Numa situação como a de Star Wars Battlefront, existe um mapeamento para os dubladores seguirem e não criarem... >.< Dessa forma, fica como uma "localização de áudio" para games com poucas referências de introspecção. Feita a dublagem localizada, as vozes voltam pra fora do país para que lá sincronizem.

É o que conta Thiago Borbolla, editor-chefe do Judão, que emprestou sua voz para a Aliança Rebelde no shooter desenvolvido pela DICE. "Me incomodava ter de falar coisas como CAÇA TIE, ao invés de TIE Fighter, por exemplo", escreveu em artigo publicado no Judão. "Soa também um pouco INTRANSIGENTE da parte de quem comanda essa história, deixando de usar o que é popular e que, portanto, soaria mais natural, pro que é o 'correto', baseado sabe-se lá no quê."

Escute um pouco do soldado rebelde Borbolla no campo de batalha:

E quem cuida da dublagem de Star Wars Battlefront?
Rolou até estrangulamento de Vader
(Kiko Ferraz) numa soldado rebelde
 (Flávia Gasi) durante a dublagem
(Foto: IGN Brasil)
A Kiko Ferraz Studios ficou responsável em deixar Star Wars Battlefront totalmente em português. O estúdio que fica em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, já trabalhou em vários longas e documentários. Sobre games, estão no portfólio Clown’s Secret e O Desafio de Gaia.

Era uma missão até mais difícil do que resgatar Palpatine das garras de General Grievous e Conde Dookan. Louvável, mas, a princípio, um tiro no pé - novamente, tendo em vista a reação negativa dos fãs pelos quatro cantos da galáxia.

A crítica gira apenas em torno dos personagens principais, pois os outros elementos do jogo foram bem produzidos. Basta analisar a reação dos fãs com o trabalho realizado pela jornalista, apresentadora e colunista do IGN Brasil, Flávia Gasi: a aprovação é quase unânime na seção de comentários do portal de entretenimento, em reportagem que explica o processo de dublagem de SWBF.

Escute uma palhinha do que Flavia aprontou contra o Império:


Tanto Flávia como Thiago Borbolla dublaram soldados rebeldes em Battlefront. E mandaram bem pra caralho! As vozes utilizadas para os rebeldes e imperiais estão bem produzidas sim, mas não têm a pressão de reproduzirem exatamente o que vemos nos filmes de George Lucas. São vozes de bastidores - e que dão valor ainda mais a ambientação do jogo. Mas a grande questão, de fato, está centrada nos personagens principais...

Star Wars é uma saga que mexe no âmago do fã. É uma doutrina. Não pode ser tratada como uma simples franquia rentável com filmes, jogos e outros produtos. E a Electronic Arts não parece ter se importado com essa relação íntima ao ter ignorado as vozes que marcaram gerações.

Star Wars jamais pode ser visto apenas como um produto lucrativo
Guilherme Briggs não foi procurado para participar do trabalho, sendo que desejava muito. E o próprio dublador, comentando em suas redes sociais, acredita que nenhum outro colega que também havia atuado na dublagem dos filmes de Star Wars tenha sido chamado.

A reportagem da Battlefront Brasil entrou em contato com a Kiko Ferraz Studios para , mas sem sucesso. "Por questões contratuais, não sou autorizado a dar entrevistas sobre o projeto", responde o diretor Kiko Ferraz. Para quem não escutou ainda, o próprio Ferraz dubla Darth Vader em Star Wars (e mesmo que não seja a mesma voz dos filmes, ele se saiu bem):



A grande questão é...
Por mais que haja um tremendo pé atrás no Brasil com relação a dublagem nacional nos filmes simplesmente por puro mimimi, Star Wars é uma saga que marcou também pelas vozes tupiniquins. "Mas quem assiste os seis filmes em português?" Bom... Tem muita gente :v A começar pela turma da Sociedade Jedi:


Vebis Júnior
Quando ainda pequeno, fui levado pela minha tia ao cinema pra assistir "O Império Contra-Ataca" legendado. Apesar de não entender nada, foi ali criado o elo. Após isso, tive a oportunidade de ver dois clássicos sci-fi como inauguração da extinta TV Manchete: Contatos Imediatos do 3° Grau e Guerra nas Estrelas (ainda não se chamava Uma Nova Esperança). E tais filmes eram o teste e inauguração do canal. Lembro como foi legal algumas coisas explicadas pela minha tia fazerem sentido pela origem do fato neste primeiro filme dublado. A dublagem foi marcante e lembro que ela também foi responsável por me trazer pro universo que tanto me empenho em cultuar.


Jack Allek
Sou fã de Star Wars desde 2002 e naquela época assistia bastante quando passava na TV. Sempre dei preferência ao original legendado, mas a dublagem de Star Wars é fantástica. Um trabalho primoroso. Quem me conhece sabe da minha paixão pelo Clone Wars 2D do Gendy Tartakovsky. Ficava esperando na frente da TV uma oportunidade de ver um episódio, mesmo que repetido, no Cartoon Network. Os episódios eram dublados e eu sempre achei genial eles terem chamado os dubladores oficiais dos filmes. Isso, para mim, dava uma imersão incrível no universo, ainda mais com a leitura cinematográfica que o Genndy conseguia passar com a série.


Sergio Lopes

Bom, acho que seria difícil falar que eu não vi Star Wars dublado, óbvio que a primeira vez que eu vi foi dublado, na extinta rede Manchete, e até me acostumei a assistir dublado, que no Brasil sempre foi um trabalho de mestre o que é feito. Só parei de ver em português quando comecei a estudar inglês, e depois disso sempre evitei as dublagen. Só recentemente com meu filho de 3 anos que passei a ver dublado novamente.

Paulo Henrique

Bem, meu primeiro contato com Star Wars foi assistindo aos filmes dublados. Na época, em 2011 (sim, sou um fã recente hehehe), eu ainda não tinha criado o hábito de assistir a filmes legendados. Eu achei fantástica e, mesmo hoje dando preferência ao áudio original, eu ainda acho a dublagem de Star Wars uma das melhores. As vozes dos atores foram bem escolhidas, sendo bem parecidas com as originais.

*** Em tempo: este quem vos escreve, Luiz Queiroga, ama a dublagem de Guerras nas Estrelas, principalmente da Trilogia Prequela - nem ouse falar mal das vozes usadas nos filmes I, II e III porque senão vou explodir sua cabeça em Battlefront <3 ***

Obviamente deu para perceber que Star Wars dublado também mexe com o coração dos fãs. E a DICE, Electronic Arts, Warner ou seja quem for tinha a obrigação de se preocupar com isso. Jogos que mexem com universos tão marcantes como Guerra nas Estrelas precisam ter esse cuidado. O simples fato de nenhum dublador dos seis filmes terem sido acionados é aterrorizante...

O co-administrador da Battlefront Brasil e responsável pelo canal Game Nosso de Cada Dia, Mario Magalhães também deu seu pitaco sobre o assunto:

Algumas vozes, como a de Darth Vader, foram bem trabalhadas até. Mas muitas não, principalmente de Han Solo e Boba Fett - pela sua entonação no trailer do jogo, parece que ele teve sequelas graves depois que escapou vivo (?) do Sarlac
;-;


"Quando se trata de Star Wars, o assunto fica ainda mais sério! Os fãs não aceitam 'mais ou menos'. E assim que eu vejo esse trailer dublado do Battlefront. Alguns personagens conseguem passar empatia imediata. Outros não", comenta Dark Marlowe, membro da Sociedade Jedi.

E a dublagem pode ser ponto exclusivo de reviravolta numa franquia. Basta analisar a boa repercussão de um dos lançamentos recentes no mundo virtual: Cavaleiros do Zodíaco - Alma dos Soldados. 

Só de escutar as vozes originais do anime a pele já arrepia >.<
 


O jogo é o segundo da série. Em termos técnicos, pouquíssimas alterações foram realizadas. O visual ganhou mais destaque com a chegada dos consoles da nova geração. Em termos de conteúdos, uma novidade bacana: a presença dos Guerreiros Deuses.

Mas, em termos gerais, nenhuma grande mudança significativa - opinião deste que vos escreve, tão fã de Cavaleiros do Zodíaco como de Star Wars. É aí que a Bandai, ao contrário da Electronic Arts, raciocinou: os fãs exigiam há tempos um jogo dublado. E assim o fez! Não é preciso ser nenhum Cavaleiro de Ouro ou Mestre Jedi para saber que era a fórmula certa para o sucesso - desde que devidamente executada.

Baroli (esquerda) e Del Greco participaram do grande
trabalho de dublagem do novo jogo de CDZ
(Foto: IGN Brasil)
A empresa de desenvolvimento do game arregaçou as mangas e fez um trabalho digno, que respeitou o fã do anime: colocou a Dubrasil Central de Dublagem para cuidar disso, convocou todos os dubladores que emocionaram milhares de brasileiros e, além disso, se preocupou que o responsável pela direção de dublagem fosse ninguém menos que Hermes Baroli, o Seiya de Pégaso.

Na tradução, um especialista no assunto (está lembrado do que falou Bruno Sangregório parágrafos acima? Pois é!) foi chamado: Marcelo Del Greco, que trabalha com Cavaleiros do Zodíaco há 20 anos.

Ele era cuidava da tradução dos mangás na Editora JBC, em 1994. No final daquele ano ficou responsável também por falar do anime na Revista Herói e atua desde 2005 na dublagem do desenho, começando com a Saga de Hades. Ou seja, um verdadeiro especialista no assunto.

Hermes Baroli, que teve ao lado na direção Zodja Pereira e Fábio Campos, resume bem o que todo esse trabalho significou: "é uma vitória para os fãs". E foi por meio disso que a Bandai conseguiu emplacar com sucesso no mercado um jogo que em pouco mudou tecnicamente com relação ao anterior, mas mesmo assim conquistou o público.

Quer outro título que agradou em termos de trabalho de voz? Batman: Arkham Origins. O jogo da Warner Bros teve o devido cuidado de contratar os mesmos dubladores que participaram da trilogia de Christopher Nolan. A direção de dublagem ficou por conta de Christiano Torreão, que aproveitou o elenco utilizado por Padua Moreira nos filmes (e Guilherme Briggs, ele de novo, esteve presente - não falta experiência, não é mesmo?).

Para quem aprovou a dublagem da Trilogia de Batman, Arkham Origins é um prato cheio:

Ficou provado que um microfone pode causar mais estrago do que um rifle de blaster ou então um sabre de luz. A dublagem nacional já se provou muito boa, como os jogos já citados e muitos outros (The Last of Us <3), mas aqueles que remetem diretamente a um universo que cativa e marca gerações, como Star Wars, é preciso receber uma atenção tremenda para que não seja um verdadeiro tiro no pé.

É necessário que mais jogos sejam traduzidos para a nossa língua, porque, novamente, temos um trabalhado diferenciado quando o assunto é dublagem. Os estúdios ainda carecem de preparo para lidar com projetos ambiciosos como Star Wars Battlefront. Mas melhor errar por ação do que por omissão, pois assim os erros, em tese, são corrigidos.

A adaptação desses estúdios aliada a coerência das empresas para não se prenderem a simples localização da língua com certeza fará esse universo ainda pouco explorado no país crescer. E quem ganha é o fã. Até lá, porém, é preciso ter paciência, pois é um processo demorado. Caso não tenha, simples: deixe seu jogo no mudo ou troque a língua e vida que segue. Melhor, jogo que segue.
No fim, uma nova esperança para a dublagem se mantém viva no mundo dos jogos
* Colaboração especial da Sociedade Jedi
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4 comentários:

  1. A Dublagem do Clone Wars 2D ficou muito boa, mas pelo trailer essa dai ficou muito ruim

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  2. Sinceramente espero que o pouco de dublagem que há no trailer seja a única parte fraca da dublagem. Mas apesar de toda a adoração que tenho por Star Wars, ainda prefiro uma tradução/dublagem aquém do que nenhuma. Isso porque o quanto mais esse mercado for crescendo, melhores e mais aprimorados trabalhos teremos. É bom que as produtoras tenham esses feedbacks bons e ruins. Lembro que quando saiu a dublagem de Assassins Creed III em pt-BR foi mó confusão. Foi um dos primeiros blockbusters dos games a lançar dublagem em português do Brasil, mas o download da tradução pro game de PC não funcionava. Ninguém conseguia instalar e a ansiedade e frustração iam tomando conta de todo mundo, até que eu resolvi extrair a tradução do instalador original e criei e disponibilizei um que funcionava e foi um tremendo sucesso... até que o povo ouviu a dublagem. Era praticamente artesanal, com velhos em vozes jovens e vice e versa, diálogos sem emoção, etc. Mas regozijei na época, pois ali era o início de dublagens melhores. E de fato, algumas recentes são muito boas, como The Witcher III, Batman Arkham Knight, entre outras.
    Enfim, vamos esperar por essa e bora nos divertir :D

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Eu so quero saber se comprando o jogo aqui no Brasil é possivel mudar a lingua para ingles? Alguém sabe me responder isso?

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